terça-feira, 29 de abril de 2014

Aprender a aprender

O Mullá mandou um menino pegar água no poço.
"Tome cuidado para não quebrar o pote!", gritou o Mullá e deu uma bordoada no garoto.
"Mullá", perguntou um observador, "por que bater em alguém que não fez nada?"
"Ora, seu estúpido", disse o Mullá; "porque depois que quebrasse o pote seria muito tarde para puni-lo, não acha?"

Do livro: Histórias de Nasrudin - Edições Dervish

É por isso que lhe dão valor

"Nunca dê às pessoas coisa alguma que peçam, até que ao menos um dia tenha se passado", disse Nasrudin.
"Por que não Nasrudin?"
"A experiência mostra que só
dão valor a algo, quando têm a oportunidade de duvidar se irão ou não consegui-la."

Do livro: Histórias de Nasrudin - Edições Dervish

Quebrador de pedras


Era uma vez um simples quebrador de pedras que estava insatisfeito consigo mesmo e com sua posição na vida. Um dia ele passou em frente a uma rica casa valiosos e luxuosos e importantes figuras que freqüentavam a mansão. "Quão poderoso é este mercador!" pensou o quebrador de pedras. Ele ficou muito invejoso disso e desejou que ele pudesse ser como o comerciante.




Para sua grande surpresa ele repentinamente tornou-se o comerciante, usufruindo mais luxos e poder do que ele jamais tinha imaginado, embora fosse invejado e detestado por todos aqueles menos poderosos e ricos do que ele. Um dia um alto oficial do governo passou à sua frente na rua, carregado em uma liteira de seda, acompanhado por submissos atendentes e escoltado por soldados, que batiam gongos para afastar a plebe. Todos, não importa quão ricos, tinham que se curvar à sua passagem. "Quão poderoso é este oficial!" ele pensou. "Gostaria de poder ser um alto oficial!"
Então ele tornou-se o alto oficial, carregado em sua liteira de seda para qualquer lugar que fosse, temido e odiado pelas pessoas à sua volta. Era um dia de verão quente, e o oficial sentiu-se muito desconfortável na suada liteira de seda. Ele olhou para o Sol. Este fulgia orgulhoso no céu, indiferente pela sua reles presença abaixo.
"Quão poderoso é o Sol!" ele pensou. "Gostaria de ser o Sol!"
Então ele tornou-se o Sol. Brilhando ferozmente, lançando seus raios para a terra sobre tudo e todos, crestando os campos, amaldiçoado pelos fazendeiros e trabalhadores. Mas um dia uma gigantesca nuvem negra ficou entre ele a terra, e seu calor não mais pôde alcançar o chão e tudo sobre ele. "Quão poderosa é a nuvem de tempestade!" ele pensou "Gostaria de ser uma nuvem!"
Então ele tornou-se a nuvem, inundando com chuva campos e vilas, temor a todos. Mas repentinamente ele percebeu que estava sendo empurrado para longe com uma força descomunal, e soube que era o vento que fazia isso. "Quão poderoso é o Vento!" ele pensou. "Gostaria de ser o vento!"
Então ele tornou-se o vento de furacão, soprando as telhas dos telhados das casas, desenraizando árvores, temido e odiado por todas as criaturas na terra. Mas em determinado momento ele encontrou algo que ele não foi capaz de mover nem um milímetro, não importasse o quanto ele soprasse em sua volta, lançando-lhe rajadas de ar. Ele viu que o objeto era uma grande e alta rocha. "Quão poderosa é a rocha!" ele pensou. "Gostaria de ser uma rocha!"
Então ele tornou-se a rocha. Mais poderoso do que qualquer outra coisa na terra, eterno, inamovível. Mas enquanto ele estava lá, orgulhoso pela sua força, ele ouviu o som de um martelo batendo em um cinzel sobre uma dura superfície, e sentiu a si mesmo sendo despedaçado. "O que poderia ser mais poderoso do que uma rocha?" pensou surpreso. Ele olhou para baixo de si e viu a figura de um quebrador de pedras.

Necessidades

Assim que o Mullá saiu da mesquita, logo após as orações, um mendigo sentado na rua pediu-lhe uma esmola. A seguinte conversa teve lugar:
Mullá: "Você é extravagante?"
Mendigo: "Sou, Mullá".
Mullá: "Gosta de sentar-se por aí para tomar um café e fumar?"
Mendigo: "Gosto".
Mullá: " Suponho que gosta de ir aos banhos todos os dias."
Mendigo: "Gosto".
Mullá: "...como também talvez se divirta bebendo com os amigos".
Mendigo: "É, gosto de todas essas coisas".
"Chega, já chega", disse o Mullá, e deu-lhe uma moeda de ouro.
Alguns metros adiante, outro mendigo, que havia escutado a conversa anterior, pediu-lhe inoportunamente uma esmola.
Mullá: "Você é extravagante?"
Mendigo: "Não Mullá."
Mullá: "Gosta de sentar-se por aí para tomar um café e fumar?"
Mendigo: "Não".
Mullá: " Suponho que gosta de ir aos banhos todos os dias..."
Mendigo: "Não".
Mullá: "...como também talvez se divirta bebendo com os amigos".
Mendigo: "Não, quero apenas viver modestamente e rezar".
Ao que o Mullá estendeu-lhe uma pequena
moeda de cobre.
"Mas por quê", queixou-se o mendigo, "você me dá um tostão a mim, um homem pio e frugal, enquanto dá àquele companheiro extravagante uma moeda de real valor?"
"Ah, replicou o Mullá, "as necessidades dele são maiores que as suas." 

Do livro: Histórias de Nasrudin - Edições Dervish